A temática de O Artista, o filme preto-e-branco de Michel Hazanavicius que foi o grande vencedor do Globo de Ouro, não é nova. O momento da transição do cinema mudo para o falado já rendeu, entre outros, clássicos como Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), em que Gloria Swanson interpreta uma atriz dos primórdios do cinema sendo suplantada pelo sucesso dos novos artistas tagarelas. Em O Artista, quem passa por este mesmo drama é George Valentin (Jean Dujardin). A diferença é que Michel Hazanavicius decidiu ir a fundo na investigação deste fenômeno que desgraçou dezenas de artistas da década de 20 e, para isso, optou por fazer um filme mudo, exatamente como eram estes desgraçados. E é essa brincadeira com o mudo/falado que faz de O Artista um filme original, permeado por jogos de metalinguagem – em que o espectador não sabe jamais se o “BANG!” que aparece escrito na tela se refere a um tiro que um personagem estava prestes a disparar, ou a um acidente de carro que o outro personagem estava prestes a sofrer.

O humor inteligente se mescla ao dramalhão e à ingenuidade típicos dos filmes do cinema mudo, com acidentes, desgraças e tristezas de todo tipo protagonizados pelo casal George Valentin e Peppy Miller, uma atriz em ascensão interpretada pela argentina Bérénice Bejo. Mas mais uma vez aqui o filme se mostra original: George e Peppy não são exatamente um casal no conceito típico de uma história dramática. Há nesta relação nuances e ambiguidades que fazem dela algo muito mais indecifrável, de abraços e admirações mais do que de beijos e paixões.

Outro mérito de O Artista é demonstrar como o cinema mudo não está a serviço apenas do humor e do drama caricato. Pode (e é obrigado a) encontrar movimentos para exprimir sentimentos complexos – o que faz dele um primo próximo da dança. Michel Hazanavicius prova que domina esta ferramenta justamente no movimento que encontrou para simbolizar o tal sentimento confuso de Peppy por George. Numa das cenas mais poéticas do filme, ela veste uma das mangas de um casaco dele que está pendurado em um cabide e então simula, solitária, um abraço entre os dois. Um movimento que caberia tranquilamente numa coreografia de Pina Bausch, por exemplo. E não é à toa que uma das chaves para o desfecho de O Artista acaba se revelando a dança.

Racionalmente, a advertência que O Artista faz ao público de 2012, direto de 1927, é: atenção!, a obsolescência, este pilar do modo de vida contemporâneo, é um conceito bastante relativo… Humanamente, eu escolheria uma mais óbvia: atenção!, não foi uma boa ideia as mulheres pararem de se vestir como nos anos 20 e os homens de sapatear. Pagaremos – como pagamos – um alto preço por isso.

Fui atrás do longa Submarine atraído por algumas de suas credenciais. Primeira: filme de estreia de Richard Ayoade, o cara por trás de bons vídeo clipes de bandas britânicas que eu gosto bastante, como Kasabian, Super Furry Animals e Last Shadow Puppets. Segunda: a belíssima trilha sonora composta especialmente para o filme por Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys. Turner criou cinco baladas das quais Hiding Tonight (aí em cima) é uma boa ilustração. Terceira: embora surja desse ambiente musical, Submarine não parecia – e não é – um daqueles chatíssimos “filmes indie” em que as cenas servem apenas para ilustrar bem as canções descoladas – tipo Sofia Coppola em “Somewhere”.

Baseado no livro de mesmo nome, escrito por Joe Dunthorne em 2008, Submarine estreou timidamente aqui na França em julho. No Brasil, passou há poucos dias na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas não sei se chegou a entrar em cartaz. O fato é que a estreia tímida combina com o apelo também low-profile do longa: um registro do primeiro romance de um casal adolescente em uma tipicamente cinzenta cidade litorânea do País de Gales, na era pré-internet, mas aparentemente nos anos 90.

Embora bonito e singelo, Submarine não mereceria maiores considerações não fosse por uma de suas características: descrito a partir do ponto de vista do garoto, consegue fazer um retrato como poucas vezes vi do caótico universo emocional masculino na adolescência. E o principal: um retrato com a profundidade que este universo merece, distante dos clichês eternizados no cinema em pastelões como American Pie. A verdade é que a intimidade emocional de um garoto na adolescência pode ser bastante complexa e conflituosa – embora o senso comum nos tenha relegado o papel de meros espinhentos obcecados por sexo. É óbvio que garotos são um pouco disso, mas não são apenas isso: há também alguma beleza nessa subjetividade desastrada, inquieta e desajeitada.

Ao tentar desvelar esse lado tão pouco abordado, o filme acerta por uma razão simples: as espinhas e a imaturidade sexual passam, mas o mau jeito em lidar com a própria subjetividade, com os outros homens e com as mulheres não se modifica muito pelo resto da vida. Em suma, Submarine mostra a essência dos garotos que não desaparece nos homens, mas que apenas aprendemos a disfarçar melhor.

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Sigo minha missão de acompanhar, sempre que possível, a carreira do excelente Yamandu Costa aqui pela Europa. Há dois anos, registrei a apresentação dele em uma cidade de 3 mil habitantes no interior da Itália. Semana passada, fui conferir sua apresentação consagradora no Museu do Louvre. Segue abaixo o texto publicado dia 1/11 no jornal Zero Hora. O mais legal é que dá para ouvir o show na íntegra clicando aqui. Vale a pena.

Foto Gabriel Brust/Agência RBS. Proibida reprodução.

Yamandu no Louvre

Violonista gaúcho apresentou em Paris composição inédita encomendada pelo museu

Gabriel Brust
Especial, de Paris

A Mona Lisa, a Vênus de Milo e uma plateia de 500 pessoas tiveram a noite da última sexta-feira embalada pelo violão de um passo-fundense que não se intimida com palco nenhum. Em pleno Museu do Louvre e com transmissão ao vivo por rádio para toda a França, Yamandu Costa apresentou uma composição inédita encomendada especialmente para a apresentação no museu mais visitado do mundo.

O show no auditório do Louvre pode ter deslumbrado a todos, franceses e conterrâneos brasileiros que lá estiveram, menos ao gaúcho Yamandu.

– Nunca fiz questão de viajar. Sou um estrangeiro mesmo no Brasil. E sou um péssimo turista, não tenho curiosidade de conhecer nada – conta Yamandu, com o tom divertido de sempre.

O que o entusiasmou foi o desafio: apresentar a suíte de choro, valsa, baião e frevo Impressão Brasileira, “estreia mundial encomendada pelo Museu do Louvre”, como anunciava o cartaz. Foi o que abriu a possibilidade de trazer um formato de show inédito em suas passagens pela Europa, acompanhado por outros três parceiros de chorinho do Rio: os gaúchos Luis Barcelos (bandolim) e Bebe Kramer (acordeon) e o goiano Rogério Caetano (violão sete cordas). Os quatro transpuseram para Paris o clima de boteco de bares como o Semente, na Lapa. Bastou apenas um ensaio, na véspera, no saguão do Hotel Molière, para que tudo estivesse pronto. O público francês encontrou Yamandu Costa em sua fase mais produtiva – foram cinco discos gravados em 2011 –, e conheceu um novo talento gaúcho: o rio-grandino Barcelos, 24 anos, responsável pela criação dos arranjos do concerto.

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Ando impressionado com a quantidade de gente partindo de uma premissa falsa para avaliar essa polêmica se Lula deve ou não se tratar no Sistema Único de Saúde. Primeiro, porque é uma polêmica igualmente falsa: ninguém está defendendo que Lula vá se tratar de fato no SUS. O que se está fazendo é uma manifestação de descontentamento da população com duas coisas: 1) o serviço público de saúde, que não funciona como deveria e 2) a ineficiência do governo Lula neste setor, pelo qual foi responsável nos últimos oito anos.

Dois dos argumentos mais toscos que tenho lido são: “você, por acaso, iria se tratar no SUS? Então por que quer que o presidente vá?” e “Quando o Reynaldo Gianecchini vai a hospitais particulares, ninguém fala nada, já o Lula…”. Os dois argumentos ignoram dois dados básicos: 1) nem eu nem Gianecchini fomos os responsáveis por gerenciar o SUS – logo, por sua ineficiência – na última década inteira, portanto uma manifestação sobre nós dois não faria nenhum sentido e 2) nem eu, nem Gianecchini passamos a última década inteira fazendo discursos demagógicos dizendo que o SUS era uma maravilha, que o mundo todo invejava o SUS e que nós, brasileiros, éramos uns ingratos por reclamar do SUS, como tanto fez Lula. (Dois vídeos de exemplo, aquiaqui).

Em resumo: ninguém quer ou espera que Lula vá se tratar no SUS, simplesmente pelo fato de que, pelo SUS, seriam grandes as chances de o presidente não se curar. Mas a ideia do movimento é justamente chamar a atenção para isso. Essa é a situação para um Silva normal – não Luis Inácio – que tem câncer e procura o SUS:

1) Nem a metade dos que procuram o Sistema Único de Saúde (SUS) por causa de câncer consegue assistência.

2) A espera média pela primeira sessão de radioterapia é mais de três meses (tempo mais do que suficiente para que o câncer se torne incurável).

3) As unidades públicas de saúde deveriam ter atendido em 2010 169,3 mil doentes que necessitavam radioterapia, mas só 111,5 mil foram contemplados (65%).

4) No caso das cirurgias oncológicas, de 152,4 mil pessoas, 71,2 mil ou 46% conseguiram passar pelo procedimento.

Ou seja, mais da metade dos brasileiros que precisou de cirurgias oncológicas em 2010 não conseguiu e, muito provavelmente, morreu – quem diz isso não sou eu, mas o próprio governo. E é por isso que, obviamente, LULA NÂO DEVE SE TRATAR NO SUS. E é por isso, também, que o movimento que busca chamar a atenção para o descalabro do atendimento público é mais do que legítimo e pertinente. Que Lula fique curado logo para, quem sabe, pressionar o seu partido, que está no governo, a resolver a situação dos outros milhões de Silvas.

O repórter José Luis Costa, da Zero Hora, apurou uma curiosa história em Porto Alegre: os restos de um experimento levado a cabo nos anos 70 e que pretendia criar um carro movido à álcool e água. À frente do projeto estava o engenheiro francês Jean Pierre Marie Chambrin. Os detalhes de como ele foi parar no Brasil, o José Luis contou nesta excelente reportagem (clique para ler) publicada no domingo. A mim, restou apurar por aqui o que levou Chambrin a deixar a França. Reproduzo na íntegra o texto que saiu um pouco menor na edição de segunda-feira. (Mas não deixe de ler, antes, a reportagem completa do José Luis, contextualizando tudo).

Ele não estava nos planos da França

Gabriel Brust
Especial, Paris

A depender da família de Jean Chambrin, a saga do inventor poderia continuar envolta em mistério. Localizado por Zero Hora na periferia sul de Paris, seu filho, Phillipe, se recusa a falar sobre o caso. Mas pesquisas e documentos históricos ajudam a descrever a rede de intrigas envolvendo governo, processos judiciais e traições, na qual Chambrin se meteu a partir de uma certa manhã de julho de 1974. E que o levaria a ir embora da França em direção ao Brasil para nunca mais voltar.

Naquela manhã, acompanhado pelo colega de pesquisa que depois se tornaria seu inimigo, Jean Chambrin recebeu um punhado de jornalistas em sua garagem localizada no número 9 da Rue du Renard, em Rouen, cidade no norte da França. O motivo: fazer uma demonstração de seu invento, um carro movido 60% à água, 40% a álcool, e cuja tecnologia previa reduzir essa proporção a até 95% de água. O invento vinha sendo gestado desde 1957 até aquela manhã em que finalmente os dois colegas decidiram mostrá-lo ao mundo.

– Eu vi o primeiro motor movido à água – disse o repórter da revista L’Automobil na capa de uma edição de julho de 1974.

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Escrevi sobre o bom momento que vive o PSG lá no blog do amigo David Coimbra. Para ler, clique aqui. Mesmo se você não se interessa por futebol, vale a pena ver o vídeo abaixo, que traduz um pouco desse bom momento do time. Produzido pelo coletivo de artistas de audiovisual Les Babtous, o clipe traz um remix do hit “Barbra Streisand”, do DJ americano Duck Souce, e é exibido no telão do Parc des Princes antes dos jogos.

 

Na semana em que o frio chegou de vez a Paris, um novo filme de Julie Delpy (na foto, de biquíni verde) chegou às telas, formando filas encasacadas pelas calçadas dos cinemas. Le Skylab é o quarto longa-metragem da franco-americana conhecida por ter protagonizado filmes como Antes do Amanhecer (e sua sequência Antes do Pôr-do-Sol) e Dois Dias em Paris. O nome do novo filme faz referência a um satélite que está prestes a cair sobre a Terra, e embora isso guarde semelhança com o último filme de Lars Von Trier e até mesmo com a própria realidade – um satélite acaba de cair de fato sobre as águas do Pacífico –, não há nada menos importante para a história do que esta ameaça vinda do céu.

Le Skylab é um filme intrigante por sua excessiva banalidade, não sendo uma comédia (ao contrário do que o trailer possa transparecer). O argumento é aterradoramente simples: um fim de semana de uma família francesa em Saint-Malo, linda cidade do litoral da Bretanha, no ano de 1979. Julie Delpy interpreta uma mãe que acompanha sua filha de 11 anos e seu marido à festa de aniversário da matriarca da família, numa bela casa cercada de verde, crianças e parentes. Le Skylab retrata os estereótipos que todos temos na família: o adolescente pretensioso, o tio bêbado, o avô senil, as crianças chatas, etc. O estranhamento do filme surge aos poucos: este argumento básico simplesmente não avança para uma problemática ao longo das duas horas. A estrutura narrativa clássica não encontra jamais o seu momento de crise. As horas se passam em um fim de semana feliz, cuja normalidade quase não é abalada. Leva pelo menos uma hora e quarenta minutos para que o primeiro momento de tensão narrativa surja. Ainda assim, ele é irrelevante e inconsequente.

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O Archimède é a banda de dois irmãos que gostariam de ser os Gallagher, mas são os Boisnard, de Laval, cidade no noroeste da França. Como os colegas britânicos, fazem um som de estética claramente inspirada nos anos 60 — nos vídeos do Archimède também não faltam boinas nem Vespas. Mas cantam em francês e suas músicas tem uma levada meio chanson da qual raramente músicos daqui conseguem escapar. Lançaram este ano seu segundo disco, Trafalgar, e a canção Le Bonheur, do vídeo abaixo, é o primeiro single. Recomendo no entanto dar uma conferida no primeiro disco, de 2009, que é muito bom. Na barra à direita do blog, na seção “Ando Ouvindo”, coloquei duas das minhas preferidas.

Não há assunto que me aborreça mais do que Apple, iPhone ou iQualquer coisa. Acho o culto à marca (a qualquer marca) algo um tanto quanto patético. Os registros sobre Steve Jobs, neste dia seguinte a sua morte, são constrangedores pela total falta de frieza na análise. Na maioria das coisas que li faltam dados críticos fundamentais para se compreender o legado de Jobs como, por exemplo, a sua capacidade de transformar ideias dos outros em business. E um business que custa a milhares de pessoas uma vida indigna, beirando à escravidão. Um modelo de negócio bastante questionável em vários aspectos.

Não acho que isso ofusque o lado positivo de sua incrível biografia. Mas são informações que devem constar. Steve Jobs não é o “John Lennon da nossa geração”, como (Santo Deus!) andaram escrevendo por aí. Para não me chamarem de reclamão, reproduzo abaixo um exemplo de texto jornalístico que eu considero equilibrado, um pequeno e direto editorial publicado na capa do Le Monde de sexta-feira (edição que saiu agora no final de tarde da quinta). Diz o que precisa ser dito, sem deslumbramento. Tradução minha na corrida:

Do Mac ao iPad, a imaginação no poder

Flores na noite, velas, lágrimas também. Tudo em frente a lojas! Vivemos em um mundo tão mercantilista que apenas os heróis do capitalismo são capazes de despertar tamanha emoção ao redor do mundo? Não. Steve Jobs, morto na noite de quarta-feira, aos 56 anos, era bem mais que um grande chefe.

O cofundador da Apple mudou o mundo. Mais do que muitos chefes de Estado, sua ação transformou a vida de centenas de milhares de pessoas pelo planeta. Sua morte provoca um frenesi de reações oficiais e anônimas mais espetaculares do que se estivéssemos diante da morte de um rock star mundial. Até na China, onde perto de 35 milhões de mensagens em sua memória foram postados nesta quinta-feira no Sina Weibo, o equivalente chinês do Twitter. A genialidade deste americano foi a de controlar a tecnologia para fazê-la entrar em nossas vidas. Enquanto vários outros grupos de informática se lançaram, desde o pós-guerra, na corrida em busca da potencia, da performance, da façanha técnica, a obsessão deste homem do Silicon Valley foi a de criar produtos simples e úteis.

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Foi só em 1996 que o 20 de setembro passou a ser feriado. Antes, ninguém dava muita bola para o dia da Revolução Farroupilha. O fato é que, a cada ano, ele fica mais popular. Trata-se obviamente de uma construção cultural, assim como foi a retomada da figura do gaúcho nos anos 40 em um novo patamar, agora heroico. Mas você se engana se acha que vai encontrar aqui a crítica surrada ao Movimento Tradicionalista Gaúcho. Primeiro, porque nunca vi problema nenhum no baile à fantasia promovido por Paixão Cortes e sua turma – e que logrou um êxito impressionante ao longo das últimas décadas.

Jamais montei num cavalo, mas acho até mesmo saudável a existência dessa construção cultural, imaginário ao qual lugares de povoação relativamente recente, como o RS, precisam se apegar. Toda parte alegórica de uma tradição é uma construção relativamente forçada, seja no RS, na Europa ou na China (ainda que os hábitos, menos perceptíveis, sejam autênticos). É preciso construir uma tradição, enfim. Siga-a quem quiser. Segundo motivo: porque em geral a crítica ao MTG surge de um pensamento autoritário típico da esquerda jurássica, que no Rio Grande do Sul tem uma sobrevida inexplicável. Em geral, mistura alhos com bugalhos em sua argumentação, tentando desconstruir os mitos da Revolução – como se isso fosse necessário. Falham justamente porque batem em mitos que, por sua condição de mitos, terão sempre seus defeitos perdoados por quem decidiu ser um fiel e cego seguidor (ou não é, mais ou menos, o que acontece com o inimputável ex-presidente Lula?). O motivo da cruzada é o mesmo de sempre: trata-se de um nicho da sociedade do qual a esquerda não faz parte ou entre o qual não tem predomínio. No pensamento autoritário que a caracteriza, o que escapa ao seu domínio deve ser eliminado. Na impossibilidade deste, desmoralizado. Então eles tentam.

Feita a ressalva, retorno ao recente “sucesso” do feriado Farroupilha, que nos últimos anos virou talvez o mais importante feriado do Rio Grande do Sul. Mesmo eu estando longe, é impossível não perceber como o ufanismo gaúcho recrudesceu. Principalmente em função do mercado publicitário, que se deu conta do filão e dele se aproveita legitimamente. Seja para vender cerveja ou para vender jornal, funciona. E acaba até mesmo conferindo um caráter engraçado e simpático ao tal ufanismo, tornando-o menos ridículo. Afinal, nada mais eficiente para espantar o espectro do nacionalismo burro do que saber rir de si mesmo.

Há, no entanto, um outro lado na questão – e é aqui que eu gostaria de chegar.

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O ano passado já tinha sido impressionante, mas nada se compara a este verão: a quantidade de turistas brasileiros circulando por Paris é gigantesca. Apesar de tudo no Brasil estar mais caro do que o normal, os preços das passagens aéreas nunca estiveram tão bons. Junte a isso a possibilidade de parcelamento – mágica brasileira que não existe por aqui – e fica realmente acessível passar uma semana na França.

Brasileiros não só estão viajando como estão gastando. Na loja da Channel da Avenue Montaigne, perpendicular à Champs Elysées conhecida pelas lojas de marcas caras, uma vendedora me conta que as brasileiras esgotaram o esmalte do tipo “Kiwi”. Em outra loja, de óculos escuros, essa na própria Champs Elysées, uma amiga que é vendedora me diz que brasileiros não só são muitos como compram demais: gastam em torno de mil euros por pessoa em três ou quatro óculos por vez. Neste momento mesmo a Galerie Lafayette está contratando vendedoras e recepcionistas que falem português para atender a essa clientela.

No plano comportamental, li esses dias um texto sobre as principais gafes cometidas por brasileiros no exterior. Achei um tanto exagerado. Tirando o desrespeito aos pedestres, todas as outras “gafes” não passam de hábitos e costumes brasileiros que não agridem em nada os locais ou outros estrangeiros. Um exemplo: o fato de tomarmos mais banhos do que os europeus – não é mito, é verdade – jamais vai se tornar um problema, como diz o texto. Acabei de passar alguns dias na casa de praia de um amigo, com uma turma, e o fato de eu tomar mais banhos do que os franceses virou motivo de risada – e não constrangimento. Talvez pela tradição de imperialismo em terras distantes e exóticas, o francês médio é bastante aberto a hábitos e costumes de outros países – e não me venha com o caso do garçom que foi mal educado com você no restaurante. Experiência de turista está longe de ser um bom parâmetro para avaliar o comportamento de um povo.

Mas voltando aos turistas brasileiros, não só pelo português dá para identificá-los circulando pelas ruas. Alguns detalhes visuais são inconfundíveis nos conterrâneos: tênis Nike de corrida e camisa de futebol é o que mais entrega. Não só Nike, mas qualquer marca de tênis de corrida – é uma moda nacional que só ao ir morar fora do Brasil a gente se dá conta. Tênis de corrida, por aqui, são usados para… correr. E ninguém usa camisa de futebol, apesar de ser o esporte mais popular do país, como no Brasil.

Outro detalhe que entrega o brasileiro é falar alto – mas nisso não nos diferenciamos de nenhum outro latino-americano. Mas se tem um hábito brasileiro que eu vi ao longo de todo o verão e que não tem nada de divertido ou curioso é o de infringir a lei e não dar o braço a torcer, achando um absurdo por ter sido pego – qualquer semelhança com políticos corruptos flagrados roubando e que negam até a morte não é mera coincidência.

Pois isso acontece muito aqui no metrô: pelo menos três vezes vi brasileiros flagrados sem bilhete pela fiscalização. São multados no ato e tentam emplacar todas as histórias possíveis e imagináveis – “Eu perdi o ticket!”, “A roleta estava aberta na entrada!”. Os fiscais, é claro, não querem saber e cobram (a multa fica em torno de 50 euros). Tentar explicar, tudo bem. O problema é o que vem em seguida: brasileiros, sem exceção, começam a dar um discurso sobre o absurdo daquela cobrança, indignadíssimos! Onde já se viu aplicar a lei?! E saem a detonar o país, dizer que é uma porcaria de país, que não tem cabimento, etc, etc, cheios da razão.

O discurso “indignado” do brasileiro contra a fiscalização – quando ele é claramente o errado na situação – diz muito sobre nossa cultura e mostra como o crescimento do PIB é o menor dos nossos problemas rumo ao desenvolvimento.





Terminou hoje, no Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, a mais importante exposição individual do francês Marc Desgrandchamps. Apesar do nome, que lembra o mítico Marcel Duchamp, e dos 30 anos de carreira até aqui, Desgrandchamps não tinha até então sido reconhecido com uma mostra mais ampla de sua trajetória – em 2006, o Centre Pompidou apresentou apenas alguns de seus trabalhos.

Justiça foi feita e o público pôde conhecer mais suas telas que exploram a transparência e a liquidez. Os personagens das pinturas sempre vazam ou se confundem com os cenários, que são com frequência praias, rios ou águas em geral. Difícil definir o tipo de sentimento que transparece das pessoas retratadas, que são fantasmagóricas ao mesmo tempo em que se encontram em ambientes aparentemente alegres. Esse tom de mistério – reforçado pelo fato de nenhuma das telas ter título, que em geral dá pistas das intenções do autor – é uma das características da obra de Desgrandchamps.

A exposição ajuda a contornar um pouco estes enigmas. No vídeo de apresentação, o próprio explica algumas de suas influências, e reconhece que boa parte delas está no cinema. O que me chamou mais a atenção foi a importância que Blowup, de Antonioni, teve, segundo Desgrandchamps, em sua obra. Mais especificamente uma das questões centrais do filme: os traços perdidos que surgem nas fotos do personagem principal, o fotógrafo de moda Thomas, depois que elas são reveladas. E também nas pinturas de seu amigo, um artista plástico que descobre “pernas” e membros involuntários em suas obras depois de terminá-las. Quer dizer, tudo a ver com as figuras “vazadas” de Desgrandchamps.

Blowup é o clássico caso de obra aparentemente banal, mas incrivelmente seminal, que influenciaria o trabalho de muita gente por décadas. O filme de 1966, rodado no auge da Swinging London, é repleto de momentos antológicos em meio à lentidão de sua narrativa. Resta ao espectador a paciência para encontrá-los. Listo aqui os meus três favoritos, o primeiro permeado pelo estranhamento, o segundo pelo simbolismo e o terceiro apenas pelo humor:

1) Thomas recebe em seu estúdio duas fãs adolescentes. O que se segue é um momento que tem tudo para ser erótico, mas se revela um pastiche de perversão e brincadeira, com os três rolando em meio às cartolinas e papeis de iluminação do estúdio. Se eles transaram ou não, acaba não fazendo diferença.

2) Thomas entra por acaso num concerto dos Yardbirds (banda de Jeff Beck e Jimmy Page). Depois de Beck destruir a guitarra, ele a joga para o público. Thomas consegue pegar e sai em disparada pela rua com a multidão atrás. Depois de muito fugir e finalmente despistar a turba, ele para, olha para aquele trapo de guitarra e decide jogá-la na sarjeta. Sai caminhando tranquilamente.

3) Thomas se reencontra, já no fim do filme, com a magnífica Veruschka em uma festa regada a muitas drogas. Ele, espantado, pergunta: “Mas você não ia para Paris ontem mesmo?”. Ao que ela responde, segurando um cigarro de haxixe: “Mas eu ESTOU em Paris”.

Há ainda a cena que abre o filme, de Thomas fotografando Veruschka, que é considerada por muitos como a mais sexy da história do cinema. A ideia que fica, tanto do filme de Antonioni quanto das telas de Desgrandchamps, é a de que jogar um coup d’œil, como dizem os franceses, de tempos em tempos sobre fotografias ou pinturas antigas pode ser um bom exercício na busca por novos elementos ou sentimentos. Há armas e pernas escondidas por todo canto.




O mérito da exposição com obras de Joan Miró (1893 – 1983) que está no Tate Modern, em Londres, até o dia 11 de setembro, é o mesmo de toda mostra individual de artista morto: nos permite traçar com certa linearidade uma história de vida que é contada pelas obras. E, a partir disso, compreender o trabalho em seu todo, com seus altos e baixos. Mas Miró, The Leader of Escape, com curadoria de Mark Daniel e realizada em parceria com a Fundació Joan Miro, de Barcelona, radicaliza essa idéia ao dispor as obras de acordo com os fatos políticos que influenciaram o artista espanhol.

Ficamos sabendo, por exemplo, que The Constellations, sua mais famosa e bela série de pinturas, foi concebida em meio ao clima de invasão iminente da França pelos alemães, em 1940. Miró vivia então em Varengeville-sur-Mer, norte do país, e acabou optando por retornar à Espanha, de onde havia fugido em 1936, às vésperas da chegada do General Franco ao poder. A chegada da ditadura na Espanha já havia despertado no artista a criação de uma série de pinturas furiosas e abstratas, dentre as quais está uma das minhas preferidas, principalmente por seu título inspirador: Still Life With Old Shoe (reproduzida no alto deste post).

A época de The Constellations seria a segunda estada de Miró em Paris. Antes disso, a exemplo de outros surrealistas como Dalí, ele viveu na cidade durante os incríveis anos da Lost Generation, tendo sido próximo de Ernest Hemmingway. Notório colecionador de obras de arte (apesar de sempre se lamentar da falta de dinheiro em suas memórias Paris é uma Festa), Hemmingway comprou uma das telas do então jovem Miró, The Farm, que ele definiu assim: “Ela tem tudo o que você poderia sentir sobre a Espanha estando lá, e tudo o que você poderia sentir estando longe e não podendo ir até lá. Ninguém mais conseguiu pintar estas duas coisas tão opostas”. The Farm, na verdade, representou o fim da primeira produção artística de Miró, que retratava a Espanha interiorana. Chegando em Paris, se deixaria levar pelo Manifesto do Surrealismo, de André Breton, que o levaria a produzir a série Animated Landscapes.

É uma pena que Woody Allen o tenha deixado de fora das histórias de Minuit a Paris (ou sou eu que não lembro dele lá?). No filme, assim como o personagem de Hemmingway nos evidencia o contraste entre o “moderno” e “pós-moderno” no plano individual (falo sobre isso neste outro texto), a história de Miró nos revelaria este mesmo contraste numa visão macro: o cotidiano político afetava incrivelmente a vida das pessoas na primeira metade do século 20, a metade “moderna”. Foram incontáveis as viagens e mudanças de Miró em função da realidade política de ditaduras e guerras – eventos tão distantes do nosso cotidiano atual.

Por fim, três aspectos da obra de Miró revelados pela exposição que fazem a visita ao Tate valer a pena. O primeiro, as esculturas, que não me agradam muito como qualquer escultura, mas que se destacam por trazerem a influência de um de seus célebres conterrâneos, o arquiteto Antoni Gaudí. Segundo aspecto – e o mais interessante – é observar como Miró não se perdeu no tempo, não parou na primeira metade do século 20. Ele chegou aos rebeldes anos 60 sendo tão inventivo quanto qualquer jovem da época, e o maior exemplo disso é a tela 1968 – nada menos que uma precursora do grafitti, lembrando o que Basquiat e outros só viriam a fazer anos depois. Por fim, se destaca o lado poeta, expresso em telas-poema, como A Star Caresses the Breast of a Negress (abaixo, no original Une Étoile caresse le sein d’une négresse), em que os dois triângulos representam uma mulher, no particular simbolismo erótico de Miró.


Chelsea Ives, 18 anos, esportista e embaixadora das Olimpíadas de 2012, presa duante os saques, que descreveu como “best day ever”.

Estive em Londres ao longo da semana, reportando as revoltas. O relato pode ser lido na edição deste domingo dos jornais Zero Hora (RS) e Diário Catarinense (SC).

Reservei aqui para o blog um pouco da reflexão sobre as causas destes conflitos nas ruas de Londres, fruto de conversas que tive ao longo dos três dias com locais e imigrantes, e de boas análises que li por lá. Já na quarta-feira, dois dias após a pior noite de violência, tanto eu quanto vários jornalistas e sociólogos da imprensa inglesa tínhamos elementos suficientes para desenhar, em linhas tortas, o que Zygmunt Bauman (sempre ele) dissecou com perfeição nesta entrevista ao O Globo. O termo que ele empregou, “o motim de consumidores excluídos”, define com precisão a motivação dos bandos que saquearam a cidade nos últimos dias.

Sim, é verdade que o estopim dos distúrbios foi o assassinato de um jovem de Tottenham pela polícia. É também verdade que as relações entre polícia e jovens descendentes de imigrantes (a grande maioria ingleses nascidos no país), especialmente com jovens negros, é tensa. É verdade que estes jovens têm um padrão de vida operário, mais baixo do que de outros grupos sociais. Mas uma caminhada por Tottenham, o bairro-bomba, revela que estes jovens estão longe de ser pobres ou totalmente marginalizados pelo Estado. Se por um lado enfrentam a hostilidade cotidiana de um dos braços dele – a polícia –, por outro vivem nos bairros que mais recebem seus benefícios sociais. E isso inclui auxílio moradia, complementação de renda, custeio de transporte e uma infinidade de outros benefícios que, é também verdade, vêm sofrendo cortes nos últimos anos. Mas seguem existindo e permitindo a todos ter um mínimo de condições dignas de vida – muito distante da realidade de paises em desenvolvimento como o Brasil. Só para dar um exemplo, na rua mais atingida de Tottenham, a High Road, deparei com um belíssimo centro público esportivo e uma belíssima biblioteca pública.

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Segue abaixo a íntegra de texto publicado em versão reduzida na edição de hoje do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Falando em futebol, neste sábado começa a Ligue 1. PSG está montando um time como há tempos não tinha, graças ao dinheiro dos árabes, novos proprietários do clube, e sob o comando do brasileiro Leonardo. As idas ao Parc têm tudo para valerem mais a pena nessa temporada. On y va! Paris est magique!



Transferência de Brandão resolve problema para o Marseille

Gabriel Brust, de Paris

A possibilidade de retorno de Brandão ao Olympique de Marseille, após o fracasso do jogador em sua curta temporada no Cruzeiro, inquietou o clube francês nos últimos dias. O acordo com o Grêmio foi recebido com alívio por torcedores.

Até poucos dias, o retorno de Brandão parecia inevitável e era classificado como um problema pela torcida do tradicional clube do sul. Isso porque, apesar de seu alto salário, estimado em 150 mil euros, o jogador certamente não retornaria aos gramados franceses. E por duas razões. Por um lado, a diretoria do clube considera que a imagem do jogador ficou suficientemente desgastada após a acusação de agressão sexual ocorrida em março deste ano – ainda que tenha manifestado crença na inocência do jogador, que nega o crime. Em abril, logo após o apressado empréstimo ao Cruzeiro, o diretor esportivo do OM, José Anigo, deixou claro que Brandão não voltaria e que o empréstimo era um primeiro passo na tentativa de vender o jogador, se não para o futebol brasileiro, para Rússia, Qatar ou Emirados Árabes. O passe avaliado em 4 milhões de euros acabou não interessando a ninguém – uma decepção para o clube marselhês, que vive um problema de liquidez financeira para investir em contratações às vésperas do início do campeonato francês.

O suposto escândalo sexual enfureceu menos os dirigentes do clube do que as circunstâncias em que ele teria se dado: às 5h da manhã, dentro do carro de Brandão em uma estrada, quando o jogador voltava de uma balada. Na ocasião, o então presidente do clube, Jean-Claude Dassier, manifestou sua irritação em declaração ao jornal La Provence: “O que me preocupa é que um jogador do OM se encontrava às 5h da manhã em uma estrada faltando algumas horas para um treino e quatro dias para um jogo importante contra o Lille. Isso é inaceitável. Brandão não se comportou como um profissional”. Brandão foi acusado de estupro por uma jovem de 23 anos. O crime teria ocorrido na madrugada de 2 de março, após os dois saírem juntos da discoteca Mistral, em Aix-en-Provence.

O segundo motivo pelo qual Brandão dificilmente voltaria a jogar pelo Marseille, mesmo se retornasse, é a resistência da torcida, que em boa medida saudou o rápido afastamento do jogador após as acusações. Na primeira partida do time após o escândalo, os jogadores do Marseille levaram a campo uma camisa com o nome de Brandão. O gesto de solidariedade ao colega acabou sendo vaiado pelas arquibancadas – numa manifestação clara de que a paciência do torcedor tinha se esgotado. Em três temporadas, a atuação de Brandão é classificada como instável – apesar da boa fase do clube, que foi vice-campeão francês em 2009 e 2011, e campeão em 2010. O que parece mais preocupante para o Grêmio, no entanto, é a sua fama de perdedor de gols, que ficou evidente na temporada mais recente. O jogador marcou quatro vezes em 30 jogos – sendo apenas um no campeonato francês (Ligue 1). Trata-se de uma queda significativa em relação à temporada anterior, quando marcou 13 vezes. Quer dizer, Brandão saiu do Marseille em plena má fase e não conseguiu se encontrar no futebol mineiro. Resta à torcida do Grêmio esperar que ele reencontre no Olímpico o futebol que apresentou por seis anos no Chakhtar Donetsk, da Ucrânia, e que o revelou ao futebol europeu.

Uma das mágoas xenófobas do psicopata da Noruega era que estrangeiros casassem com norueguesas. Segundo relato de pessoas próximas, uma de suas ex-namoradas teria se envolvido com um indiano. Mulheres, na visão de gente como Anders Behring Breivik, entrariam na “lista de coisas que os estrangeiros nos roubam”, junto com empregos e uma suposta “pureza cultural”.

Me lembrei de Breivik hoje, lendo um bom artigo do Le Monde sobre a Jordânia, país em que mulheres não podem se casar com estrangeiros. Para ser mais preciso, a lei determina que estrangeiros que casarem com mulheres da Jordânia não terão nenhum direito social e, o mais grave, os filhos que estes casais tiverem também se tornarão párias, privados inclusive do direito à nacionalidade. O recado é claro: filhos de mulheres com estrangeiros não se tornam cidadãos. São centenas de milhares de crianças formalmente sem acesso à saúde pública, escola, etc, mesmo tendo nascido no país. Segundo o Le Monde, a situação social destas pessoas é mais grave inclusive do que a dos quase 2 milhões de refugiados palestinos que vivem por lá contando com ajuda da ONU. Por outro lado, é claro que os homens nativos não são atingidos pela lei: podem casar tranquilamente com estrangeiras, sem prejuízo para a mulher ou seus descendentes.

Não é preciso maiores ilações entre os dois casos para se constatar que boa parte das psicopatias panfletárias da minúscula extrema-direita europeia se concretiza cotidianamente em muitos países – notadamente nos de maioria islâmica. A diferença é que o ideário racista, xenófobo e sexista da extrema-direita européia, que não consegue – ainda bem – sair dos panfletos de meia-dúzia de malucos, ganha dimensões imensas nas páginas do jornal, na forma que já virou clichê “o avanço da extrema-direita pela Europa”. A verdade é que há Estados inteiros que praticam o ideário de Breivik na forma da lei e que com frequência não recebem a condenação sumária que os europeus recebem por conta de sua, repito, meia-dúzia de malucos.

PS.: Sim, o mestrado acabou e pretendo voltar a escrever mais por aqui. E as amenidades, lá no Twitter.

Escrevi sobre Minuit à Paris, o novo filme de Woody Allen, lá no blog de Cinema da Zero Hora. Reproduzo a íntegra aqui: 


Poucas vezes um filme entregou tanto diante do pouco que prometia em seu trailer e em sua divulgação como este Meia-noite em Paris, de Woody Allen. Foi com um ar cético que o público francês lotou os cinemas em busca de mais um possível clichê sobre sua capital. Mas clichê não é exatamente um problema para uma cidade que ainda se encanta diariamente por uma efêmera torre de ferro: lá se foram, portanto, 1 milhão de espectadores assistir a Minuit à Paris que, na semana passada, perdeu em bilheteria apenas para Piratas do Caribe 4 e Se Beber, Não Case! 2.

Sim, se você achava que a França era o último refúgio do cinema de arte se enganou. Ou acertou, se considerar que um filme de Woody Allen alcançou o terceiro lugar das paradas lutando bravamente contra os blockbusters. O caso de amor de Allen com a França é antigo. Em Dirigindo no Escuro, de 2002, o próprio diretor ironiza o fato de ser tão popular no país da baguete. Ao narrar a história de um cineasta que perde a visão durante as filmagens, ele ressalta que o único público do mundo que compreendeu aquele filme sem nenhum sentido, realizado por um cego, foi o francês.

Essa relação freudiana entre Allen e os franceses por si só explicaria o sucesso de Meia-noite em Paris, mas desta vez havia um risco, já que o que sempre despertou neles o fascínio pela obra do diretor foi o deslumbre pela atmosfera nova-iorquina. Franceses contemporâneos têm pavor ao clichê parisiense construído pelos estrangeiros e, ao mesmo tempo, cultivam um estranho fetiche pela cidade norte-americana e seus arranha-céus – uma espécie de antípoda da capital francesa. Paris hoje é uma cidade que vive dos cartões postais e que, paradoxalmente, está cada vez mais distante de seus velhos cartões postais. Allen foi generoso com a cidade ao retratar nada além daquilo que resta do seu passado nas cenas que se passam em 2010. A grande viagem do filme, no entanto, aporta nos anos 1920.

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palco

Sempre achei que DJs ficam meio deslocados quando tocam em palcos tradicionalmente ocupados por bandas. A dinâmica da música eletrônica não precisa de todo aquele espaço ao redor do protagonista e, por outro lado, demanda outros tipos de espaço, por exemplo, os que são dedicados a projeção de imagem.  Foi por isso que fiquei bastante impressionado com o que vi no sábado à noite em Enghien-les-Bains, cidade 13 quilômetros ao norte de Paris. Fui até lá para ver o Simian Mobile Disco, dupla inglesa que eu gosto bastante e ouço há tempos. E também para conhecer o lago da cidade, famoso pelo cassino que fica às suas margens. O palco, construído dentro do lago, era outro apelo para se deslocar até lá.

Acabei conhecendo esse negócio da foto aí em cima, que não é exatamente um palco. Se chama Boom Box e foi concebido pela 1024 Architecture, grupo especializado em criar instalações audiovisuais e intervenções urbanas. O Boom Box é uma estrutura de 16 metros de largura por 8 de altura que imita um Ghetto Blaster, o velho radio-cassete portátil dos anos 70. No lugar do tocador de fita K7, fica o DJ. O segredo da estrutura é ser uma espécie de caixote, não apenas uma tela. Isso possibilita que as imagens projetadas tenham efeito 3D e “dancem” dentro da caixa, através da técnica de Mapping-video. Ou seja, é muito mais do que um telão, e as imagens chegam a dar vertigem em quem está vendo. Perfeito para a atmosfera da música eletrônica. No vídeo abaixo dá para ter uma ideia de como funciona e, neste vídeo, feito por mim na noite de sábado, é possível perceber o formato “caixote” da estrutura.

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