A temática de O Artista, o filme preto-e-branco de Michel Hazanavicius que foi o grande vencedor do Globo de Ouro, não é nova. O momento da transição do cinema mudo para o falado já rendeu, entre outros, clássicos como Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), em que Gloria Swanson interpreta uma atriz dos primórdios do cinema sendo suplantada pelo sucesso dos novos artistas tagarelas. Em O Artista, quem passa por este mesmo drama é George Valentin (Jean Dujardin). A diferença é que Michel Hazanavicius decidiu ir a fundo na investigação deste fenômeno que desgraçou dezenas de artistas da década de 20 e, para isso, optou por fazer um filme mudo, exatamente como eram estes desgraçados. E é essa brincadeira com o mudo/falado que faz de O Artista um filme original, permeado por jogos de metalinguagem – em que o espectador não sabe jamais se o “BANG!” que aparece escrito na tela se refere a um tiro que um personagem estava prestes a disparar, ou a um acidente de carro que o outro personagem estava prestes a sofrer.
O humor inteligente se mescla ao dramalhão e à ingenuidade típicos dos filmes do cinema mudo, com acidentes, desgraças e tristezas de todo tipo protagonizados pelo casal George Valentin e Peppy Miller, uma atriz em ascensão interpretada pela argentina Bérénice Bejo. Mas mais uma vez aqui o filme se mostra original: George e Peppy não são exatamente um casal no conceito típico de uma história dramática. Há nesta relação nuances e ambiguidades que fazem dela algo muito mais indecifrável, de abraços e admirações mais do que de beijos e paixões.
Outro mérito de O Artista é demonstrar como o cinema mudo não está a serviço apenas do humor e do drama caricato. Pode (e é obrigado a) encontrar movimentos para exprimir sentimentos complexos – o que faz dele um primo próximo da dança. Michel Hazanavicius prova que domina esta ferramenta justamente no movimento que encontrou para simbolizar o tal sentimento confuso de Peppy por George. Numa das cenas mais poéticas do filme, ela veste uma das mangas de um casaco dele que está pendurado em um cabide e então simula, solitária, um abraço entre os dois. Um movimento que caberia tranquilamente numa coreografia de Pina Bausch, por exemplo. E não é à toa que uma das chaves para o desfecho de O Artista acaba se revelando a dança.
Racionalmente, a advertência que O Artista faz ao público de 2012, direto de 1927, é: atenção!, a obsolescência, este pilar do modo de vida contemporâneo, é um conceito bastante relativo… Humanamente, eu escolheria uma mais óbvia: atenção!, não foi uma boa ideia as mulheres pararem de se vestir como nos anos 20 e os homens de sapatear. Pagaremos – como pagamos – um alto preço por isso.











